G-Dragon: Kwon Ji-Yong; Mini Album Review

6/08/2017 0 Comments A+ a-


Você não precisa de muita inteligência para concluir que Temer jamais considerou que o gordinho da carne fosse delatar tudo. O público geral não suspeitou, durante 98% da trama, que Bruce Willis estava morto em O Sexto Sentido. Enquanto lia ou assistia A Pedra Filosofal, duvido muito que algum de vocês tenha adivinhado a real identidade do Professor Quirrel. E agora, imagino que não tenham pistas de onde quero chegar.

Em dois caminhos: eu jamais flertei com a possibilidade de gostar majoritariamente um EP do G-Dragon, ainda que contenha exceções, quanto mais em uma fase promocional encabeçada por algo assim:

Não que seja uma novidade. Se hoje a YG é rotulada, adorada e igualmente criticada, mas inegavelmente bem-sucedida em termos financeiros, é pela identidade badass incutida em toda sua estrutura fonográfica. É a cruz e a espada que acompanham a trajetória de enriquecimento e influência da empresa fundada pelo ex-Boy do Seo Taiji, e como uma imposição, está em solistas, girlgroups e, claro ticogroups.

Mesmo que seja interessante relacionar sua empresa a uma imagem específica, como se fosse uma patente, isto também prejudica muito o trabalho de seus atos, que pouco habitualmente conseguem resvalar em terrenos distintos, algo essencial para desbravar melhor as virtudes e versatilidade de talentos musicais.

Podemos dizer que na década passada, o 1TYM já seguia esta estética, mas é o padrão estereótipo do hip-hop. A expansão ao mainstream, podemos dizer, se firmou com o BigBang e a postura arrogante, esnobe e superior que os integrantes muitas vezes transmitiam em MVs e ritmo. Conforme o tempo passou e o sucesso se estabeleceu, se tornou um caminho mais previsível e logo se disseminou por todo trainee e engravatado corriqueiro pelos corredores da YGE.


2NE1, BlackPink, Minho, Bobby. Todos herdaram o DNA do BigBang. Curiosamente, algum traço de diferenciação se mantém no Winner, enquanto sera impensável ver Lee Hi abdicar da suavidade que lhe consagrou.

Listem-se centenas de nomes, talvez nunca atingiremos um consenso de quem melhor assumiu a identidade descrita acima quanto G-Dragon, justamente o líder do BigBang, e que se tornou, goste ou não dele, uma das figuras mais autênticas, autorais e requisitadas do entretenimento coreano. Sua fama transcendeu o conceito pasteurizado e limitado do que seria um Idol e hoje ele possui autonomia na YG para fazer o que bem quiser por se tratar de um Midas certeiro cuja presença atrai milhões.

É claro que sucesso é sempre questionável, e autorismo não necessariamente ressalta as virtuoses artísticas da pessoa. Aqui o caso é ambíguo. Seria plenamente possível montar uma playlist numerosa com acertos do G-D envolvido tanto no vocal como na composição da faixa. Com o BigBang: Last Farewell, Haru Haru, Tonight, Cafe, Love Dust, Blue, Bae Bae, Loser. Solo ou em colaborações: One of a Kind, That XX, Without You, Coup D'Etat, Black, ROD. Mais recentemente, até teve uma boa participação na excelente title da IU, Palette.
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Dá pra montar outra playlist com troços pavorosos? Certamente dá. Mas sempre ressalto como se deve prevalecer o trato positivo ao conteúdo geral. Procure o catálogo completo e achará material horrendo suficiente para completar outro disco, talvez até no plural, nos Beatles, Oasis, Stones, Madonna, Michael Jackson. Não quero fazer comparações entre artistas, e sim do contexto (e nem vou citar as divas Pop aqui).

Neste momento, nem sei mais se faço essa introdução para comentar detalhadamente todos os arredores deste novo álbum do GD, ou para me defender do preconceito alheio. Mas neste imediatismo e ódio que vemos diariamente na internet, se faz necessária uma explicação completa, mesmo que quem vem preenchido em ódio não se dê ao trabalho de examinar sobriamente o caso.

Em suma, no entanto, caso tenha passado incompreendido em toda a digressão acima, eu não sou fã do G-Dragon. Porém, reconheço que curto vários pedaços de seu trabalho. Além disso, ele apresentou Rosé e Jennie, do BlackPink, ao mundo. Provável que não tenha sido sua ideia, mas o prestígio e atenção atraídos pela marca G-Dragon são benéficos para qualquer projeto de Idol. Pergunte a elas se não agradecem a oportunidade.

Agora, finalmente indo ao ponto, a resenha de Kwon Ji-Yong, segundo EP do líder do boygroup mais lucrativo do Pop Coreano:

Sem demagogia, G-Dragon não é um ser humilde. Ele gosta de se fazer notar. É um tremendo dum vaidoso e que para muitos tenta bancar o intelectual através das amostras de arte em seu Instagram. Sucesso ser ofensa não é exclusividade do brasileiro, que me perdoe Tom Jobin e seu vira-latismo. Autoconfiança sempre é confundida com prepotência e o vanguardismo é por si só um imã de desprezo; se for bom, é sorte; se for ruim, um prato cheio para acusarem de mediocridade alguém que tenta alcançar algo que seu talento não permite. G-Dragon tanto já caiu quanto já derrubou estes conceitos.

E Kwon Ji-Yong, álbum autointitulado que ignorantemente eu assumi ser uma dedicatória a alguém de natureza feminina, é G-Dragon orgulhoso de ser G-Dragon. Não é hoje que ele irá mudar. Desde as sugestões misteriosas que cercaram a pré-divulgação, com a proposta de mostrar o verdade lado do homem - aí o nome verdadeiro na capa -, até, finalmente, ao que verdadeiramente importa nisso tudo: as canções. O saldo subjetivo de Kwon Ji-Young pode ser negativo. Mas certamente não é algo que ouviremos com tanta frequência, independente do respaldo dado por produtoras. É um trabalho de alguém desacostumado à estagnação, ávido por mais e com uma incessante curiosidade desbravadora e inquietante em se debruçar na maior variedade de referências possíveis no mais curto espaço possível - o EP vem com apenas 5 faixas.

Aliás, Kwon Ji-Yong não apresenta simples faixas. A personalidade de GD já começa aí. Como uma grande peça, ele é dividido em introdução, 3 atos e o epílogo no outro. Isto deixa implícito que estamos diante de um produto de arte, não uma baboseira estritamente comercial. Porém, há um objetivo por trás do nome (Spoiler do que verá nos comentários de Divina Commedia).

Mas isso tudo vem da mente do idealizador. E a auto-percepção pode ser a menos confiável das impressões.


Em um toque de inspiração, o álbum foi orquestrado como um crescimento profissional e como cidadão em si de GD, o que explana bem a escolha da Intro.

Middle Fingers-Up abre com notas de piano infantis e travessas, um espírito juvenil e devasso que GD visivelmente adotou para si, independente dos 30 anos se aproximarem. Não posso dizer que se trata de um espécime revigorante e sublime que fez meus ouvidos criarem vida própria, mas em uma ouvida ocasional, despretensiosa, cumpre sua proposta. A letra é deliberadamente imatura e seria uma trilha perfeita para filmes de besteirol que o cinema americano costumava produzir em massa no início da década passada.

O follow-up - Act. I - se dá em Bullshit, novamente um título infame e que dispensa qualquer análise metafórica. Ao chegarmos no primeiro drop de Dubstep, fica bem claro que é a visão mais rebelde e vid4lok4 de sua juventude. Não que ele tenha completamente abandonado esse comportamento, mas não imagino algo como Good Boy, o maior expoente desta natureza marrenta, sendo feita hoje em dia. Em âmbito pessoal, diria que me sinto até culpado por gostar de algo assim, sendo este um estereótipo massante do que boygroups costumam lançar, mas a vibração do instrumental trap com a boa utilização de flauta perto do final concerne alguma característica bônus para o que poderia soar comum em outra situação. É o mesmo com a Chung-ha, que essa semana se sobressaiu no desgastado Tropical, e o Gfriend, que semestralmente salva o Aegyo. Cronologicamente, seria o período em que seu status está em crescimento.

Já Superstar, novamente com um título que desconhece a sutileza do simbolismo e não esconde o reconhecimento do que é, adentra na era onde ele já é uma estrela em êxtase. Assim, não se estranha ser a faixa mais Pop do álbum, o começo da celebrização descarada e que segue até hoje, mas sem a mentalidade pueril e boba que se espera de alguém envolto em riquezas. A letra debate o significado disso tudo e a solidão trazida pelo superlativo. É o início de um diálogo que assumirá as rédeas da atmosfera sombria a seguir.

Coeso em sua abordagem e individualmente distinto, sem deixar por isso de ser aprovável, é quase injusto, porém necessário ressaltar que como um único álbum, a alternação brusca de gêneros cria uma falta de ligação conforme o mini avança. É como uma playlist montada aleatoriamente destas "The Best Of".



O terceiro ato sublima ainda mais isso, sendo um midtempo introspectivo e emocional, longe da bonança de alegria e maravilhamento de antes. Falo de Untitled, 2014, ano em que ele esteve pouco ativo, apenas em parcerias,  e talvez uma das causas esteja subentendida na letra, que melancolicamente lamenta por um intenso amor perdido, e que parece ter deixado cicatrizes indeléveis nas profundezas da alma. É uma mensagem bela e parece sincera, mas não consigo sentir o que ele tenta repassar; as dores, unilaterais, falham sem atingir a compaixão alheia. O texto é tocante, mas como esforço vocal, seu timbre arranhado parece incapaz de sintonizar com o coração.

E o outro se dá com a nada tímida Divina Commedia, e por si só já esbanja pretensão, afinal, trata-se de uma das maiores obras literárias da humanidade, uma tragédia universal e onipresente no pensamento coletivo, dividida também em 3 anos, o que obviamente não se trata de uma coincidência. Não resta dúvida algum de que se trata de uma empreitada mais pessoal do que ele jamais anotou, tanto pelo nome do título, quanto pelas letras, todas de sua criação. E graças a ela, todo o EP ganha uma nova dimensão.

Visivelmente mais maduro, 3 anos passados do que ocorreu em 2014, ele ainda enfrenta os tormentos de seu corolário. Aqui, as dores anteriormente apresentadas se fazem intensamente marcantes e ampliadas; o pesar que sente e a angústia de se manter refém do passado, incapaz de prosseguir livremente, como Dante, o protagonista da Divina Comédia, desesperado, perdido e confuso, ineficiente em escapar do Inferno. O inferno de Ji-Yong é particular, o real e mais avassalador de todos, pois é inescapável e perene, continuamente nos queimando.



Não conhecemos o verdadeiro GD, mas seria cínico crer que aqui seu intuito é exagerar na dramaticidade. O dom de se camuflar em glamour e sorrisos para esconder as sombras internas é algo que todos já devem ter abusado em algum momento de sua vida. E também não denota uma infelicidade eterna. Entretanto, ela sempre está pronta para dar às caras, lutando por seu espaço. O que a letra sugere é a desilusão e desesperança, mas também a urgência da mudança e a consciência de uma realidade. São passos inerentes para se atingir o purgatório e então o paraíso.

Para sair do inferno, primeiro precisa saber estar nele, e então querer partir.

Que o tema de fundo seja o clássico Veridis Quo, do Daft Punk, é apenas um brinde grandioso. E apenas uma outra tragédia, esta muito maior, tirará Divina Commedia de minha lista das melhores de 2017.


Kwon Ji-Yong não é impecável. Falta consistência e fluidez nas transições. Foi um sacrifício tomado pelo Sul-Coreano para manter este verdadeiro e corajoso desabafo o mais honesto e brutal possível. E se muitas vezes o que vemos na indústria do entretenimento é a superficialidade falsa, faxada que costuma cair por terra assim que as cláusulas de contrato não mais obrigam o mudismo, quanto um nome de peso se compromete em falar mais sobre si, é sempre honroso ouvir.

Arriscaria dizer que o estímulo de se abrir se deu justamente em Palette, onde IU novamente fez um conto sobre si. E como fora com a solista, aqui temos um trabalho sólido e digno de reflexão. A arte é o espelho da vida. E GD soube magnificamente como refletir a si mesmo e se fazer ouvir com interesse.

Talvez você não goste de G-Dragon. Pois então dê uma chance a Kwon Ji-Yong.

Nota 8,5. 
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