Crítica: Mulher-Maravilha (2017).

6/02/2017 0 Comments A+ a-


"Tome cuidado no mundo dos homens", diz a rainha Hippolyta quando Diana, sua filha, esta prestes a deixar a abençoada e pacífica ilha de Themyscira, em busca de Ares para findar uma guerra, A Guerra. Criada com alma combativa e proativa, mesmo sem inimigos a qual enfrentar, é nos mitos aprendidos por histórias que ela molda sua existência. E a partida para a batalha simboliza a perda da inocência da ingênua garota, prestes a, como bem diz a frase, adentrar no reino mais perigoso para uma mulher, o nosso mundo, o mundo que privilegia um gênero em prol de outro.

Este é apenas um dos simbolismos diretos elaborados por Patty Jenkins, responsável pela tocha que pode abrir uma nova era para diretoras ao assumir a empreitada multimilionária da Warner e tentar salvar uma franquia até então sustentada mais pela fama de seus personagens do que pela qualidade em si. Superman e Batman precisaram que a Mulher-Maravilha os resgatasse ano passado e agora novamente. Com ênfase. 

A pressão sobre si era mais difusa do que os heróis másculos enfrentaram anteriormente. Pois ao contrário destes, a Mulher-Maravilha não tem precedentes em qual residir uma amostra confiável - não podemos contar com Elektra e Catwoman para isso, é claro. Mais do que preparar o terreno para o vindouro Liga da Justiça e restituir uma esperança de algo bom para o futuro do grupo, as portas que Jenkins e Gadot têm de empurrar vão muito além do cinema em si, refletindo em toda uma estrutura social. E por ser um produto estatisticamente oriundo de uma temática com predominância masculina, a mensagem deveria ser universal e igualitária. E igualitária é e sempre foi a base do feminismo, a equivalência entre homem e mulher, não a superioridade, como muitos equivocadamente afirmam. 

E felizmente, recheado de honras, o longa atinge todas suas expectativas artísticas - o lucro é outra história - e consegue suceder todas suas tarefas em graus elevadíssimos de êxito. 

Um dos aspectos mais desafiadores para esta empreitada seria como criar uma identidade própria sem desrespeitar todo o trabalho concebido por Zack Snyder, mas também inovar, visto que Snyder recebeu mais críticas negativas do que positivas em seu período como mestre. A ligação, então, é rapidamente feita com base na foto mostrada no embate entre os principais heróis da casa. Uma obrigação contratual, imagino, contornada com leveza pela equipe, pois o que vemos a seguir é uma viagem em memórias e temporal, quase como que outro universo, sem a devassidão e corrupção de egos que vimos anteriormente.

A ilha das amazonas, em seu verde bucólico, mar de um anil perfeito, intocado pela perversão humana - ou do homem - encontra absoluto contraste quando em comparação ao mundo "real", como Gadot não deixa de perceber, ao descrever a Londres de Jorge VI, cinzenta, úmida e esquálida, como horrível, o que simboliza a mudança da visão que a jovem tem ao preterir a segurança de casa por seu senso de justiça balizado em lendas gregas.

Em domínio britânico, o longa esbanja um humor jocoso e ácido nas observações que a princesa faz, como ao relacionar escravidão às tarefas atribuídas a uma secretária, e a falta de reação perante os ignóbeis hábitos masculinos à época - e mantidos até hoje em doses contidas; os laudatórios públicos à beleza da moça e a indignação ao verem uma mulher em debates militares, cuspindo a palavra como se referissem-se ao mais baixo rato de esgoto. 

Mesmo que qualquer espectador, independente do sexo, não seja genuinamente comparável à situação da protagonista, que vê o mundo pela primeira vez e desconhece seu funcionamento, é por seu comportamento que percebemos funções ridículas, como as citadas acima, mas que no dia-a-dia consideramos procedimento normal e executado por todos em rotina. É o egoísmo humano e a falsa noção de superioridade. E não falo aqui apenas da relação homem-mulher, pois, novamente, o feminismo prega igualdade. O roteiro é inteligente ao também mencionar a marginalização de um personagem étnico - e homem, assim como a distinção de importância estabelecida pela condição financeira dos responsáveis pelas questões bélicas, sujeitos que demonstram indiferença entre poder ou não preservar incontáveis cidadãos da morte. Diana, longe da distorção empática destes, luta por todos, o que mostra sua diferença também com os já retratados heróis da produtora, que estraçalham centenas, até milhares em suas batalhas megalomaníacas. E sem demagogia, sua persistência e relutância em aceitar o genocídio estimula e evoca o melhor dos que estão próximos de si. É a edificação da pessoa em estado puro, bondoso, com fé nas pessoas.

Mas o maior brilho da fita é justamente a destreza com que discute tantas mensagens humanitárias e com tamanha eloquência sem soar verborrágico ou enfadonho para o público que, afinal, foi assistir um blockbuster sobre uma super-humana. Pois Mulher-Maravilha é, como quebra quarteirões, um espécime de primeira linha; barulhento, impactante e inspirado, fazendo da maior guerra que o globo já presenciou um cenário apocalíptico perfeito, algo que o primeiro Capitão América falhou em conseguir.

Gadot e Jenkins são os pilares máximos desta condução. A cineasta pela maestria com que executa os movimentos de câmera e aperfeiçoa a técnica do slow-motion que Zack Snyder banalizara recentemente, sabendo quando usufruir da técnica e a perspectiva certa em enquadrá-la. E seu talento para a ação faz frente ou é mais apurado do que a maioria do que vemos no cinema de gênero - claro que com a contribuição de um orçamento generoso. Mas além disso, merece palmas pela dinâmica fluida e os takes criativos em que filma a pancadaria sem transformar tudo num amálgama indistinguível de sons e luzes, à lá Michael Bay. Já Gadot, tão criticada na escolha, encarna a heroína com complexidade e naturalidade na transição psicológica da personagem, sem perder o espírito esperançoso desta; notem como soa pueril e magnificada enquanto descobre as peculiaridades do mundo moderno, mas também o olhar de fúria ao vislumbrar as atrocidades da guerra. E seu físico é imponente o suficiente para acreditarmos nos movimentos mirabolantes que executa - e com um pouco de complacência até mesmo no penteado impecável após saltar e golpear enlouquecidamente. Sua elasticidade se assemelha realmente a uma perita em artes-marciais, não apenas uma bruta montes, mal que parece perseguir os bombados heróis masculinos. E tudo isso com a mesma vestimenta taxada de sexualizá-la, pois não é a indumentária e muito menos o corpo que define seu caráter - nem o de ninguém. 

São essas duas que brilham com mais intensidade. Mas se igualdade é objetivo, não se pode esquecer do empenho de todo o bando coadjuvante de Diana em batalha, em especial o doce e divertido Sameer (Saïd Taghmaoui) e Steve Trevor(Chris Pine), o parceiro de combate e que serve de epítomo na amistosidade entre os diferentes cromossomos, através de sua admiração e respeito ao ver do que a mulher é capaz.

Um filme deve ser avaliado de acordo com a época em que foi filmado. E no contexto de 2017, dessa era marcada por super-heróis, Mulher-Maravilha é um marco de mudança na sétima arte. É emblemático, único ver cenas como a que em que ela lidera um amontoado de soldados em campo inimigo, e o fato dos vilões serem homens não é em vão, e sim a perfeita metáfora contra o machismo.

Mas nada disso seria concluído se, obviamente, o fator cinema não fosse esplendoroso. E ele é. A despeito do material de origem, pois é perfeitamente concebível esta comparação, e se os fãs tanto clamam por uma aceitação maior de super-heróis na esfera da arte, nada mais justo do que aceitar, então, que ele seja capitaneado por uma mulher, pois o que deve ser visto é o mérito, não o gênero, a raça ou a preferência de editora. 

E em mérito, poucos se igualam a Mulher-Maravilha.

Nota: 9.