Taeyeon: My Voice - Album Review.

3/02/2017 0 Comments A+ a-


Quando analisamos um álbum em si, um dos fatores que costumam preponderar no resultado final é sua consistência como o todo. É conceito básico; seguir uma linha conceitual para a produção do disco de acordo com o intuito de sua mensagem.

Mas a SM nunca foi tão presa a isso. Com exceção dos últimos LPs do f(x), talvez, seus atos costumam entregar esforços irregulares e voláteis, com imprevisíveis acertos sucedendo erros em tracklists geralmente desconexas de um objetivo comum.

My Voice, em síntese, é assim. Mas acontece algo raro. Ao invés desta falta de conexão entre a maioria das faixas causar uma sensação de estranhamento e prejudicar a experiência, a qualidade individual de suas canções provoca uma viagem passiva e condescendente perante o mundo desconhecido que virá a seguir, principalmente quando aceitamos em inconsciente que dificilmente o next trará algo aquém do minimamente aproveitável.

Ainda que traga um laço inegavelmente adepto ao R&B, gênero quase inescapável a Taeyeon, ele serve como condutor menor de outros elementos que caracterizam as tracks em si. Confira:



O início da jornada é parcimônico e emocional com Fine. Mesmo sem ter a força de I, a boa troca entre o dinamismo da voz de Tae com a backing track que aqui serve bem como coadjuvante da tessitura invejável da artista são eficientes em nos transmitir o sentimento doloroso da letra.

E a seguir surge Cover Up, que não tem absolutamente nada relacionado ao single. Análogo a Why, é um Tropical introspectivo destacado pela boa fluidez com que os versos vão ao refrão sem sofrer grandes alterações de estilo e sem deixar de soarem dançantes e energizantes. Uma faixa leve, mas bem lúdica, como pede o gênero. Destaque pra bridge e suas variações instrumentais que surpreendem pelo ineditismo graças à solidez do que fora apresentado até ali.

Feel So Fine mantém a linha emocional nos vocais com instrumentalidades diferentes, trazendo cordas, que marcarão tanto o restante do LP. Parece uma b-side dos últimos trabalhos do Paramore e seu power pop minimalista. Vindo de mim, é um elogio.



I Got Love, o pré-release, é quem mais soa desconexo no conjunto, mesmo que a ligação entre elas, como disse antes, não seja intimamente relacionável. Entretanto, enquanto todas as tracks apoiam-se em sonoridades baixas, I Got Love é mais soturna e sensual, temas já sugeridos nos teasers. É uma bela música, mas de assimilação duvidosa.

I'm Ok deixa o R&B mais proeminente, juntamente à classe do Blues. As habilidades adaptativas da artista são notáveis, e ela consegue acompanhar a malícia elegante dos diversos sons discerníveis da beat. Prestem atenção nas key changes do terço final.

A 6ª track - Time Lapse -, é também minha favorita. A similitude com o som alternativo e lounge de Nell é óbvia, e a resposta para a dúvida é Kim Jong-wan, produtor recorrente do cara e cabeça pensante daqui. Os 04:14 são colossais e extasiantes. Kim tem habilidades únicas para criar melodias transcendentais, a na voz de Tae, temos um uníssono virtuoso quase celestial e que não atinge jamais um ápice, pois vive nele. Mesmo que tenhamos uma progressão ao aproximar o refrão e nos versos finais, cada segundo parece conter alguma característica conspícua e valorosa por si só. Exaustivamente sensacional.

Curiosamente, na metade do álbum, ele conflui para o terreno do downtempo depressivo, o momento para Tae brilhar sozinha com acompanhamentos tímidos. Time Lapse tinha traços disto, mas tão além que se tornaria criminoso a deixar no mesmo pacote de ballads mais ortodoxas. Sweet Love e Lonely Night são as mais fracas do todo. Apesar de não serem subsequentes, as comento juntas por terem essencialmente o mesmo arranjo e apresentarem os mesmos problemas. Não chegam a ser ruins, mas parecem ter sido introduzidas em cima de hora para quebrar os recordes unitários e percentuais de high notes. Fórmula que funciona em Fine pelo contraste da letra e dos versos. Em sucessão frenética, ficam incômodos e banais.

When I Was Young é mais básica, assim como as osts do catálogo da Tae e UR. O êxito se dá justamente pela sua maestria em concernir um sentimentalismo melodramático ao entoar qualquer meia dúzia de palavras. Na contramão, perde força por ser cercada de espécimes melhores e com características que fogem do lugar comum.

Se Sweet Love e Lonely Night eram correspondentes, o mesmo ocorre com When I Was Young e sua sucessora: Love in Color. As duas primeiras apelavam para berros. Young e Color são contidas e funcionam melhor justamente por isso, especialmente Love in Color. Uma Korean Version de Breathe Me, da Sia, com um timbre que, pessoalmente, eu gosto mais. É engraçado notar que os erros de Sweet e Night são devidamente corrigidos aqui, o que demonstra equívoco da staff  ou ao menos uma falta de conhecimento em como exercer e utilizar vocais mais potentes. Love in Color é módica e econômica, sem catarses, mas diz muito mais assim. O combo piano com a doçura da performista são mais do que suficientes.

Fire me deixa horrivelmente frustrado. Não por sua qualidade, e sim por não poder ver um MV disto. É uma profanidade. Os viúvos de I e que até hoje dizem que ela não entregou mais nada à altura, recebem o mais próximo de seu debut. Se o hook não é tão grudento e ensolarado, a composição é mais atrativa e instigante. Com acordes evocativos de ballad rocks, finalmente temos um uso perfeito de potencial vocal erigido de acordo com o crescendo instrumentístico, o que proporciona um nirvana sonoro digno de esforços no suprassumo da inspiração.

Vi comentários alegando que riffs mais agressivos fariam bem, mas discordo. Sabotariam a proposta. Se podemos trazer uma temática comum em (quase) todas as faixas - exceção de I Got Love -, é sua dramaticidade teatral, o que deve perseguir Tae em toda sua carreira pela facilidade com que modula sua voz e irradia sentimentos. Sabido isso, a intensidade de Fire é irretocável.

O adeus precoce é em Erased, um fechamento digno do que ouvimos anteriormente e uma inesperada despedida pulsante e revigorante. Se muitos anseiam por uma Tae full rock em breve, Erased e Fire são bons aperitivos. Podemos ouvir um Q de Fall Out Boy e até Strokes aqui, mas sem perder a veia Pop. Creio, no entanto, que ficaria melhor alinhada com I Got Love. Beneficiaria ambas e, logo, a ouvida plena.

De qualquer forma, uma escolha inteligente. Saímos contentes com o tempo que depositamos aí, estimulados pelo tom movimentado do canto do cisne, mas também agoniados pelo fim. Se você se conteve em repetir coisas como Fire e Time Lapse durante a projeção, dificilmente não voltará a elas e outras. Fruto de um álbum bem-sucedido.

Como sabem, não sou de dar notas. O texto é o bastante para passar minha opinião. E ela é positiva, bem positiva. Até agora, o melhor do ano. E, sem hesitar, um dos melhores da curta história do Pop Coreano. Um passo adiante na breve e brilhante trajetória solo de um dos principais nomes da indústria. Um nome que encaixa fama com talento para nos presentar anualmente diversas vezes.

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