BTS, 'Blood Sweat & Tears' e a Dicotomia Entre o Bem e o Mal.

10/09/2016 0 Comments A+ a-


Eu tenho sentimentos conflitantes quanto a fanbase do BTS. Por um lado - e aqui generalizo, mas sei que muitos Armys são normais -, temo o fanatismo e a loucura com a qual lidam com os integrantes do grupo. Seis anos no K-pop e ainda não havia visto tamanha devoção - e olha que Sones x Blackjacks, no auge, era grotesco. Por vezes chegam a beirar o ridículo, com uma propensão incrível a desprezar qualquer crítica, por mais educada e lúcida que seja.

Mas isso também atrai uma certa admiração, afinal, é bacana ver um fandom tão fiel e que alavanque a carreira dos caras, e assim do K-pop. O problema é quando o fanatismo se sobrepõe à coerência, que no caso é a qualidade da discografia do ato.

E quanto sua discografia, também tenho sentimentos conflitantes. Acho os singles lançados em 2013 e 2014 mais do mesmo, genéricos e com a visão estereotipada de Boygroups. Em 2015, porém, entraram no meu radar com a ótima 'I Need U' e a boa 'Run'. Agora, em 2016, realmente atraíram esse que vos escreve, não apenas pela crescente e absurda fama, como pelos excelentes singles 'Young Forever' e 'Save Me' (esta segunda que foi a 11ª melhor faixa de K-pop do primeiro semestre, segundo o Delírios).

Porém, em meio a esses acertos, há 'Dope' e 'Fire', que abraçam o lugar comum de badboy explorado em demasia pela maioria dos boygroups que buscam o sucesso fácil. Cada comeback dos caras é uma incógnita - será que veremos o lado ousado e misterioso do BTS, ou o clichê estagnado?!

Felizmente, 'Blood Sweat & Tears' não apenas se encaixa no primeiro, como o eleva a outro nível.

Confira o MV:


A princípio, Blood (ninguém tem tempo pra digitar o nome completo toda hora, né?!) parece ser mais um filho do Moombahton (House com Reggae) gênero erigido ao mainstream por Justin Bieber em seu Purpose. Entretanto, o single acaba por se desenrolar em algo único e surpreendentemente dissonante do cenário masculino Pop atual na Coreia, mesclando um tom mais dramático dos vocais com versos leves e descontraídos dos rappers, sem cair para o lado Mothafucka. Não sei se dói em Rap Monster ser assim tão contido, mas é certamente beneficial ao conjunto da música ficar sem bridges enlouquecidas sem propósito aparente. 

O usual é que bridges de raps, em Pops, sirvam para quebrar o padrão de forma mais brusca a bridges comuns, e assim driblar a mesmice que poderia ocorrer em uma melodia contínua, e aí entra um dos principais privilégios de grupos com uma boa quantidade de integrantes: a diferença de tonalidade e timbre entre os membros, que, se bem executadas, já geram uma composição individualmente interessante conforme as vozes se alteram. Pessoalmente aqui, achei J-Hope o mais fraco e que menos agrega para o todo, e como sua parte está lado a lado com a de Namjoon, J perde ainda mais crédito em comparação. Não estou pagando pau pra ninguém, mas é perceptível a identidade sonora de Rap Monster, como sua voz chama atenção pela força e o misto entre rouco com agudo, que a deixa deliciosamente (UI) notável.  

O destaque, entretanto, vai pro MV. Que coisa maravilhosa! É bom ver que a Big Hit soube investir os lucros monumentais gerados pelo produto que é BTS.

Não apenas a parte técnica é um vislumbre e conta com exemplares trabalhos de fotografia e ambientação, que criam uma áurea mística e etérea em meio ao museu e cenários enevoados, como há um trabalho elogiável de direção e roteiro. Não sei bem que surge com as ideias para os vídeos, mas já passou do tempo onde MVs eram algo inferior aos seus parceiros de audiovisual. Respeitados os limites de tempo e orçamento, pode-se criar sempre algo bacana com certa inteligência e criatividade, e aqui isto é realizado com maestria.

Os simbolismos e referências são postos de maneira ora tímida, ora expositivas, com o anseio de instigar o pensamento do público, mas sem jogar respostas fáceis. Espero que os Armys, por mais fanaticamente doentes que sejam, tenham pegado essa abordagem semiótica.

As analogias bíblicas são claras. O início já mostra Jin a encarar o quadro 'The Fall of the Rebel Angels', obra renascentista de Pieter Bruegel sobre uma batalha entre anjos e anjos caídos, retratados pictoricamente com traços monstruosos. 

Já a sentença em alemão escrita na parede que fica à esquerda da estátua de asas negras, diz "You have to have some chaos in you to bear a dancing star", frase do filósofo Nietzsche. Jogada sozinha ela não denota tanto sentido, e para isso tem-se a frase proferida por Rap Monster entre 4:05 - 4:17: " He, too, was a tempter, he, too, was a link to the second, the evil world.", tirada do livro 'Demian', vencedor do Nobel da literatura de 1946, que conta a história de Emil Sinclair, um jovem que fora criado por pais justos e íntegros, que o ensinaram a ver o mundo de uma forma bela e honesta, uma realidade que ele não se depara ao sair de sua residência. É nessa dicotomia de valores, na ausência de respostas para sua existência, que, orientado por Max Daemon, ele busca o auto-descobrimento e realização própria através de ações dúbias e contra convenções sociais ortodoxas. 

É um conto Jungiano sobre o interior de cada um e aceitar a ambiguidade de nosso ser, tanto a luz quanto as trevas, para só assim chegar a alguma resposta sobre quem somos.

Nesse contexto, Jin é Sinclair, ainda ingênuo, "vazio" e em busca de algo vital, enquanto Daemon serve como guia.

No MV, claro, a ideia fica abstrata e por vermos Jin ter seu rosto partido, assim como a efígie santa que se parte, dá a entender que ele foi corrompido pelo mal - Taehyung, o anjo caído, no caso. A história parece inconcluída, e a não ser que eu esteja muito errado, seria de se considerar a possibilidade de uma continuação.

Enfim, é uma teoria incompleta e isso me deixa pinicando, pois odeio não entender ~as coisas~, mas é o melhor que bolei e caso vejam alguma explicação mais sólida, deixem nos comentários. O que está definido, é que o BTS teve um baita comeback.

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