Crítica - Caça-Fantasmas (2016).

7/16/2016 0 Comments A+ a-

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Caça-Fantasmas/ Ghostbusters, dirigido por Paul Feig.
A disputa feminina por equivalência aos homens na sociedade vem numa crescente, e isso se espelha também no cinema, com grandes nomes da indústria protestando sobre as desigualdades salariais e de oportunidades, e é claro, no aumento de mulheres protagonistas em grandes produções, ainda que o terreno se mantenha majoritariamente carregado de testosterona. A Sony sentiu fortemente o sexismo ao "brincar" com a nostalgia alheia e anunciar um reboot do idolatrado longa original, apenas por ser protagonizado por mulheres. Infindáveis ultrajes virtuais e tentativas de boicotes fizeram parte da produção da fita (inclusive, no momento que faço a crítica, a película encontra-se com 4.4/10 no Imdb, nada condizente com sua qualidade real, e inferior aos péssimos Transformers, por exemplo).

Para a infelicidade dos detratores, no entanto, Caça-Fantasmas não apenas honra o original e supera sua pífia continuação, como serve de ode ao emponderamento feminino e é recheado de metalinguagens hilárias contra o ódio machista que assolou - e ainda assola - as atrizes responsáveis por combater os fantasmas neste 2016.

O elenco é encabeçado por Kristen Wiig/Erin (que já havia trabalho com o diretor Paul Feig em Missão Madrinha de Casamento), uma cientista que largou os estudos paranormais para buscar uma carreira acadêmica respeitável até que, por circunstâncias inesperadas, reencontra-se com sua antiga parceira, Abby (Melissa McCarthy, contribuinte de Feig em Missão Madrinha de Casamento, A Espiã que Sabia de Menos e As Bem-Armadas). As duas voltam a trabalhar juntas após recentes aparições fantasmagóricas em Nova York, juntamente a Holtzmann (Kate McKinnon, de Saturday Night Lives), Patty Tolan (Leslie Jones, também de SNL) e o obtuso - porém lindo - recepcionista Kevin (Chris Hemsworth).
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Por estarmos falando de uma realização comandada por Paul Feig, é desnecessário ressaltar que o tom predominante é humorístico. O fato do cineasta compartilhar a autoria do roteiro com Katie Dippold (de Parks e Recreation e As Bem-Armadas) corrobora ainda mais a afirmação, sem mencionar as atrizes, todas frutos do audiovisual cômico. O interessante é como o humor foi utilizado pela equipe. O roteiro é salpicado com tiradas sagazes pontuais, o que aliados pelo experiente timing do elenco, funciona tanto verbal quanto visualmente, principalmente se levado em conta seu conteúdo metalinguístico.

Paul tem se especializado em construir suas produções com protagonistas femininas fortes, e aqui ele eleva essa tradição com chacotas que invertem estereótipos com escárnio justamente contra os que denegriram a produção por "destruir infâncias". A começar pela figura vivida por Chris "Thor" Hemsworth. Elegante, musculoso, autoconfiante e.... extremamente limitado cognitivamente. É a loira recepcionista burra que tanto vemos em séries e filmes, versão masculina. A própria participação de homens no longa serve como metáfora para a situação atual que o sexo feminino se encontra. Batalhando por mais autonomia e igualdade, mas ainda sofrendo resistência por partes machistas, conservadoras e patriarcais. No universo Ghostbusters, essa luta é desempenhada pelas cientistas, é claro, contra figuras como o prefeito, que tenta reprimir sua imagem, negando veementemente a coerência de seus atos, e nesse contexto é simbólico que o vilão seja desempenhado por um nerd vingativo e solitário com complexo de inferioridade. 

Poderia-se argumentar que utilizar uma caricatura nerd como antagonista contra mulheres seria trocar um preconceito por outro, e talvez o intuito de Feig seja justamente esse, expondo o quão imbecil é relegar todo um nicho apenas por preceitos falsos e infundados. Essa visão se adéqua também em Patty, a única negra do grupo e justamente a que não apresenta diploma e conhecimentos técnicos. Entretanto, mesmo sem as credenciais de suas colegas, a mesma se mostra sempre útil e disposta. Uma forma de dizer que apesar das amarras sociais, ela possui tanto talento à disposição quanto suas parceiras de pele clara.
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Essas interpretações são cabíveis pela riqueza do texto, mas Caça-Fantasmas não é apenas um debate ideológico. As sutilezas estão lá, embora, acima de tudo, seja um entretenimento de bom nível. Se Feig apresenta total domínio em sua margem de segurança quando envereda na comédia, se sai eficientemente bem nos novos desafios artísticos demandados. Por falta de segurança ou consciência de seus limites, as tomadas em cenas de ação são pragmáticas (não ruins, vale dizer). O diretor não abusa de movimentos excessivos ou invencionices de câmera. O resultado pode não ser épico como se espera de mestres no gênero, mas sua sensatez em não arriscar o que não domina é suficientemente lúdica e se completa no carisma das atrizes e no design de produção de Jefferson Sage, que respeita o original por manter e identidade estética através de cores fosforescentes dos lasers de prótons e dos fantasmas, assim como apresenta suas próprias criações (vide as criativas armas de Holtzmann).

Uma direção competente, um roteiro sólido e um universo instigante, porém, nada funcionaria se as atuações não nos envolvessem e gerassem carisma nas personagens, o que as quatro damas atingem com esmero. McCarthy está nitidamente mais recatada do que o costume, o que não a impede de construir Abby como alguém irritadiça e espontânea. Wiig concerne várias nuances em Erin, tanto a íntegra professora quanto a "lunática" perseguidora de criaturas espectrais. Jones e McKinnon não recebem tanto tempo em tela quanto as duas supracitadas, o que valoriza ainda mais a forte personalidade que passam em suas atuações. Jones é escandalosa, determinada e a mais humilde do conjunto. Já a Holtzmann de Kate é fascinante e adoravelmente ensandecida. Certamente a atriz é quem mais se destaca e sai beneficiada após o filme, o que a deve garantir várias propostas pela frente. É igualmente notável como além do caráter descontraído, elas transmitam uma inteligência que nos faz crer que todos os termos técnicos ditos que não compreendemos pareçam críveis. 

O novo Ghostbusters funciona como produto independente, e a contragosto dos saudosistas radicais, satisfaz com ágeis referências no cast original e a icônica música tema Ray Parker, e acima de tudo, tem força para cativar uma nova geração e encher os cofres da Sony com sequências. Então, ao menos quando a parte 2 chegar, nem os fãs mais ávidos poderão reclamar de quebra de expectativa, provavelmente até ganharão uma memória melhor do que a atrocidade de 89.


Nota 7.