Crítica - Rua Cloverfield, 10(2016).

4/07/2016 0 Comments A+ a-

Rua Cloverfield, 10/ 10 Cloverfield Lane, dirigido por Dan Tratchenberg.
Cloverfield(2008) foi um desses sucessos inesperados que surgem de tempos em tempos no cinema. Utilizando de found footage, construiu uma atmosfera tensa e funesta para contar um filme de monstro, algo ainda não explorado pelo estilo. Além dos milhões arrecadados, catapultou a carreira de alguns envolvidos, como Matt Reeves, o diretor que hoje comanda o reboot da franquia Planeta dos Macacos e o roteirista Drew Godard, criador da série Demolidor e responsável pelo texto de blockbusters como Perdido em Marte e Guerra Mundial Z. Porém, era mesmo necessária uma continuação? Talvez não, mas 8 anos depois, querendo ou não, ela chegou, e fortuitamente, provou-se um novo acerto - dessa vez, não tão inesperado.

O filme não é bem uma continuação, já que tanto a narrativa se dá por câmera objetiva, quanto o gênero altera, de terror para um thriller psicológico, então pode-se dizer que a ligação entre as películas é sua originalidade e principalmente, a eficiente criação do ambiente pesado.

Desta vez, acompanhamos Michelle (Mary Elizabeth Winstead, 31 anos com cara de 25), que após sofrer um acidente de carro, acorda em um pequeno quarto dentro de um bunker, onde também habitam Emmett(John Gallagher Jr.) e Howard (John Goodman), o "criador" da fortaleza e quem resgatou a protagonista, que afirma deixar todos enclausurados do mundo exterior para não sucumbirem a intoxicação do ar, que sofreu uma espécia de ataque não identificado.

Ainda que possua uma escala muito menor que seu predecessor, este Cloverfield é ágil justamente pela forma como utiliza essa restrição inteligentemente como recurso dramático. Dan Tratchtenberg e o diretor de fotografia Jeff Cutter mostram total domínio sobre as sensações que querem passar, hora transformando o Bunker em um verdadeiro cubículo claustrofóbico e escuro, e por outras em um local alegre e irreverente, em raros momentos amistosos dos personagens.

O principal catalisador da tensão no longa fica por conta de Goodman. Seu enorme corpanzil é frequentemente destacado, idem para a carranca impulsiva e raivosa. A mixagem de áudio também trabalha para tornar sua presença temível, já que simples atos, como o abrir e fechar de portas e um soco na mesa, ecoam muito acima que o restante dos sons. É como se dissesse: "eu estou no poder aqui, me tema".
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O ambíguo Howard de John Goodman.
E é  na figura de Howard que surge a maior duvida do enredo: sua história é real ou não? O Design de produção e o ator jamais nos deixam chegar a um veredicto confiável, o que contribui para uma sensação de insegurança e ilusão crescente. Por um lado é natural desconfiar da sanidade de alguém que se preparou para o apocalipse, assim como os pontuais objetos espalhados pelo ambiente que ressaltam sua personalidade perturbada,, como livros e guias para sobrevivência. 

Porém, há outra visão. John desenvolve Howard como um homem que mesmo sendo propenso a ataques espontâneos de ira, é atencioso, prestativo e por vezes, amigável, o que dificulta qualquer julgamento prévio definitivo. Algumas cenas exteriores implantam a duvida de forma ainda mais contundente na cabeça de Michelle - e consequentemente, na nossa -, o que nos deixa a mercê da trama. O ator é repetitivamente filmado em contra-plongées, com se fosse superior a câmera, o que fomenta sua imponência em tela.

Os personagens, aliás, são o principal diferencial deste para o Cloverfield original. Enquanto que na fita de 2008, o interesse e fascinação pela novidade camuflavam a superficialidade dos protagonistas, aqui eles são ponto cardinal para nossa identificação e aceitação do que ocorre. É uma obra pequena, e basicamente com um elenco de três nomes, e é necessário uma boa empatia para com estes para fortalecer o envolvimento com os 103 minutos de projeção, e felizmente, Mary e Gallagher se saem tão bem quanto Goodman.
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Mais uma boa atuação de Mary Elizabeth W.
Winstead, que possui uma carreira sólida no cinema independente, mas nunca conseguiu decolar em termos midiáticos, constrói a mulher como alguém forte e inquisitiva, mas esperta o suficiente para disfarçar sentimentos e conseguir o que quer. É inevitável torcer para ela. Já o Emmett de John conquista pela simplicidade e fragilidade, principalmente quando expõe suas frustrações e arrependimentos com ternura para Michelle, como se fosse para nós. É notável também como os três possuem uma boa distribuição do tempo em tela, mesmo que a protagonista seja estabelecida.

Com dois bons atos voltados para explorar a psique dos personagens perante a circunstância em que estão, é uma pena que justo o clímax desande em irregularidades. Apresenta bons momentos, principalmente um que envolve fuga com câmera tremida (teria de ver de novo pra dizer se é Steady ou doggicam), que injeta adrenalina e urgência na ação, sendo realmente sufocante, mas é também no terceiro ato que o roteiro apela para clichês do gênero, como planos acelerados que poderiam ser mais empolgantes. Por alguns instantes, inclusive, há partes que parecem um slasher movie, totalmente destoante da proposta executada até então.

São erros cruciais que prejudicam a qualidade final, mas sem comprometer o fato deste ser sim, um bom filme. Sua realização era desnecessária, mas com méritos próprios, a existência de Rua Cloverfield está justificada.


Nota: 7.