Os Fatores que Levaram Nárnia ao Fracasso e o que o Reboot Deve Fazer Para Não Repeti-los

1/12/2016 0 Comments A+ a-

Ainda veremos Aslan na grande tela, mas pode ser a última chance, e melhor aproveitá-la.

Iniciada em 2005, a franquia cinematográfica que adapta as obras de C.S. Lewis surgiu em uma das épocas mais profícuas e promissoras para qualquer franquia infanto-juvenil. Recém saídos do fenômeno Senhor dos Anéis e ainda submergidos no mundo mágico de Harry Potter, o público ansiava por novas aventuras fantásticas.

A que mais chegou próxima disso foi a saga de Aslan, que com O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, fez mais de $700 milhões mundo afora, sem contar os incontáveis fãs que conquistou. A aventura contava com animais falantes, batalhas épicas, as glamourosas , heróis com idade identificáveis ao público, criaturas mitológicas e acima de tudo, um criativo universo próprio. Tudo indicava para um novo gigante da indústria, mas não foi o que aconteceu.

Devido ao sucesso do longa, várias dissidências passaram a ocorrer entre a gigante americana, a produtora Walden e Philip Anschutz, bilionário americano que costuma investir em produções para cinema e televisão, sendo um dos principais nomes que levou Nárnia para as telas. Com o montante exorbitante obtido pelo 1º capítulo, exigiram que o contrato fosse renegociado, caso contrário, Philip iria lançar os outros longas por si só. Com medo de perder a valiosa marca, a Disney  aceitou, mas a relação não foi a mesma. A divulgação foi pífia, a época escolhida para seu lançamento foi desastroso, o que acarretou em um fatídico fracasso, fazendo pouco mais de $400, sendo o custo muito mais elevado. Uma queda brusca em relação ao seu antecessor. A própria qualidade do filme deixa a desejar, mesmo se tratando de uma película voltada aos mais jovens, cheio de alicerces morais e metáforas cristãs.

No final das contas, os direitos para produzir sob o nome Nárnia passaram para a Fox, que de maneira pueril, iniciou o projeto de "O Peregrino da Alvorada" com o pensamento de que a marca se mantinha forte e o retorno financeiro era garantido. Não que tenha dado prejuízo, acumulou cerca $415 milhões, para um custo de $155. O que mais preocupou foi o desinteresse mostrado para com a obra, que gerou pouco buzz e uma quantidade ínfima de novos seguidores. As críticas também fora de amenas para ruins.

Desde 2010, então, vivemos em um limbo. Não era sabido qual rumo a Fox tomaria com Nárnia. Poderia continuar a história cronologicamente com o mesmo elenco, poderia adaptar um livro que envolvesse os outros personagens, ou recomeçar do zero.

Em Junho do ano passado, o roteirista David Magee gerou um princípio de burburinhos na rede ao revelar que tinha terminado um 1º rascunho do que seria uma adaptação de "A Cadeira de Prata". Pois bem, quase um ano se passou e mais nada foi dito sobre, o que denota um amadorismo inacreditável por parte do estúdio, que parece não saber o que faz com o universo que adquiriu. Creio que os fãs nem esperavam mais novidades, até que hoje, finalmente, recebemos a informação: Nárnia continuará, e será um reboot, um recomeço.

Palavras do produtor Mark Gordon:

it’s all going to be a brand new franchise. All original. All original characters, different directors, and an entire new team that this is coming from.

Tudo será uma nova franquia. Tudo original. Personagens originais(do mundo de Nárnia), diretores diferentes e uma equipe totalmente nova.

Mais de 10 anos depois de seu início, e finalmente teremos uma nova chance de contemplarmos novas histórias de Lewis para o áudio-visual. Por mais incrédulo que seja, é inevitável que caso tenha alguma familiaridade com o mundo de Nárnia, essa notícia desperta uma inerente animação, afinal, fomos privados de termos uma conclusão para nossos heróis devido a problemas externos que nada têm relação com a arte.

Porém, devemos ser sensatos em admitir que a Fox terá de percorrer um longo caminho, cheio de percalços, para não transformar este recomeço em mais uma empreendimento calamitoso.

Afinal, o que o estúdio deve fazer para não cometer os mesmo erros que afundaram os filmes anteriores?


1 - Elenco

A trilogia possui atores fantásticos: Tilda Swinton, um broto de James McAvoy, Jim Broadbent, Will Poulter, Peter Dinklage, Warwick Davis. O problema é que são todos coadjuvantes de jovens que são - e me perdoem os fãs - muitas vezes medíocres. Os 4 Pevensie são, sem exceção, ruins ou medíocres. Tanto que nenhum conseguiu vingar, sendo Georgie Henley(Lucy/Lucia) a única que ameaçou se manter na indústria, mas até agora, sem êxito. O restante afundou no ostracismo. Ben Barnes possui sua beleza e carisma para arranjar papeis, mas só agora tem conseguido emplacar algo interessante na TV, como Filhos da Liberdade, do History, e a vindoura megaprodução da HBO, Westworld. Pode ser sua última chance entre os grandes. Já Will Poulter, quem diria, tem se mostrado uma agradável surpresa, Levou o Bafta de ator revelação e está cotado em projetos ambiciosos e com diretores consagrados, como o recente "O Regresso", um dos favoritos do Oscar, onde contracena com Leonardo DiCaprio e Tom Hardy.

Os atores são aqueles que nos introduzem e conduzem pela história, e para isso, deve ser competentes e com personagens bem desenvolvidos. O principal desafio da Fox será arranjar jovens talentosos e carismáticos para chamar atenção de todos, e nos fazer sentir empatia com os heróis. Não deve ser difícil achar alguém mais expressivo que Skandar Keynes por aí. Até o padeiro de minha cidade consegue.


2 - Saber Definir Seu Público

Não adianta querer vender Nárnia para adultos com mais de 30 anos ou idosos. Por mais que alguns membros dessa faixa possam apreciar as tramas de Lewis, no geral, as histórias foram feitas para crianças e jovem adultos. A Fox deve saber focar a divulgação nesse público, e arranjar a data de lançamento  novamente perto do natal, ou durante as férias escolares dos Estados Unidos, onde filmes assim costumam ter mais retorno. A marca também pode ser melhor explorada, com uma maior gama de produtos licenciados e parceria com redes de lanchonetes e afins. E nada disso adianta se agendarem sua estreia junto com um blockbuster de escala global como filmes de heróis, Star Wars, etc...

3 - Roteiro

Focar num público definido, sim, mas não subestimá-los nem utilizar de artifícios bobos e excesso de conveniência, como ocorreu em demasia no 2º e 3º filmes. A essência dos livros de Lewis deve ser mantida, com suas lições morais e ensinamentos de vida, mas não tornar isso algo exagerado e praticamente uma obra bíblica. É fundamental o profissional responsável pelo script ser inteligente para introduzir as metáforas de maneira sutil e comedida, de uma forma que seja perceptível, mas não expositiva.

4 - Fazer Bons Filmes

Parece e é óbvio, mas como anda difícil fazer isso hoje em dia. A quantidade de coisas grotescas que vemos preenchendo as redes de cinema é constrangedora e infindável, e o pior é que muitas obtêm um retorno em bilheteria, o que viabiliza continuações e projetos similares no mercado. Os envolvidos no novo Nárnia devem ser competentes e determinados a fazer algo muito bom e conspícuo, fugindo do lugar comum e não se resignando com um razoável/bom. E pra isso, é inestimável que a Fox contrate um bom diretor, compositor, diretor de fotografia e outros profissionais técnicos. Devido sua escala épica, o sucesso vai depender da sintonia entre todos. 


Com certeza ainda levará um bom tempo para vermos Cadeira de Prata rodando o mundo, mas desde já é importante destacar as mudanças que devem ser realizadas para evitar um novo tropeço que poderia afundar de vez qualquer resquício de dignidade que estes primorosos e atemporais livros possuem. Eles merecem um tratamento digno, e se assim for feito, podem tornar-se uma marcante franquia. Narnianos, resta-nos torcer.

Por Nárnia, e por Aslan!