Se um Elefante Incomoda Muita Gente, Uma Pessoa Incomoda Muito Mais - Como ir ao Cinema Está se Tornando Insuportável

12/17/2015 0 Comments A+ a-

Ir ao Cinema costumava ser mais divertido.

Estou com uma forte dor de cabeça de tanta raiva. Acabei de tomar uma aspirina e agora me resta esperar o seu efeito iniciar.

Em qual contexto você esperaria ler as afirmações acima? Talvez após o vestibular. Após provas de final de semestre ou uma briga severa com alguém importante. São ocasiões estressantes que podem afetar até o mais pacífico de nós. Infelizmente, o que me levou a este estado não foi nenhum dos fatores citados acima. Foi uma sessão de cinema.

Acabo de chegar em casa após assistir "Star Wars: O Despertar da Força", filme que não necessita apresentações. Meu intuito era, após voltar ao meu "ninho", iniciar a produção da crítica sobre o longa, como faço sempre. Porém, por uma série de razões inconvenientes, tive de alterar todo o conteúdo do que planejava escrever. A sessão que tive foi tão insuportável, que não tenho condições de redigir algo coerente e interessante sobre a volta de Han Solo. Então, para não ficar sofrendo inutilmente, resolvi descarregar a ira neste post de utilidade pública.

Você já deve ter lido ou assistido algo sobre como a ida ao cinema está cada vez mais desagradável. É um quadro negativo que está, infelizmente, piorando de forma progressiva e rápida. Conversas impertinentes e nada discretas, chutes, gente fazendo lanche no meio da sala, outros usando facebook, whatsapp e até atendendo ligações durante um filme. São cenas absurdas e cada vez mais frequentes nos cinemas nacionais - não sei sobre o panorama mundial.

Eu já havia passando por situações semelhantes outras vezes, especialmente em Godzilla e Kingsman. Mas hoje, o sentimento de revolta que começou a florescer foi maior do que a passividade. Enquanto a obra rodava, busquei ignorar os imbecis para aproveitar o filme, já que sou fã da saga e como qualquer um que se afirme como tal, ansiava muito por sua estreia. Entretanto, foi logo as luzes se acenderem, que ao invés de sair com um sorriso no rosto, feliz e já formando mentalmente a crítica, o que senti foi uma gana crescente fervilhando através de mim, tornando impossível pensar em qualquer outra coisa.

Vamos aos acontecimentos:

Cheguei no cinema com uma hora e meia de antecedência e já havia fila. Ao adentrar o local de exibição, me sentei no local de costume - sou desses -, 3ª fileira da parte superior, 2ª cadeira da direita para esquerda do bloco direito de assentos. Para minha sorte, no banco da frente estava uma mulher pequena e que não bloquearia a visão, mas qualquer casualidade benéfica acaba por aí.

Em minha direita, estabeleceu-se um homem gigante - de altura e largura, diga-se -, logo tomando o descanso de braço.

- Ok, pensei. Desde que se mantenha em silêncio, nada intolerável. Mal sabia eu que o homenzarrão seria o menor de meus problemas.

Em minha esquerda, estava uma cadeira vaga e após esta, um jovem sozinho. Como ele continuou sem companhia e o letreiro que simboliza o começo de todos Star Wars já estava em andamento, pensei que assim seria durante suas mais de últimas horas. Ledo engano. E é aí que o inferno começa.

Lá pelo terceiro parágrafo do texto que forneceu a sinopse do capítulo VII, alguém entra na sala e o "jovem solitário" a meu lado começa a sinalizar. O outro acena e senta-se no lugar vago. Alguém civilizado poderia até cumprimentar o amigo e fazer um ou outro comentário rápido, mas não foi este o caso. Não obstante em chegar atrasado, pisar em meu pé e atrapalhar a visão ao passar, ele começa a glorificar a própria sorte ao chegar em tempo para ver a película, sem se dar conta de que o estava fazendo agora, enquanto não fechava a boca.

Foram cerca de 2 minutos de frases extremamente relevantes como: "O que eles falaram nas letras?", "Só isso, que sorte que eu tive então", "Putz, mas que sorte mesmo hein, não perdi nada e ainda não fiquei na fila", "Quanto tempo tu esperou?", "Bah, que droga, eu dei sorte mesmo então hein", "Voltei do trabalho e não perdi nada, que sorte".

E quanto mais ele falava, mais perdia.

O sujeito resolveu não parar por aí. A cada nova cena, ele demonstrava um eloquente e vasto vocabulário de interjeições. O conhecimento era tanto, que não deixava passar momento algum. Foram dezenas de "uau, nossa, massa, foda, legal..." e afins.

Em um dia de rara infelicidade, não bastando o Galvão Bueno que estava em minha esquerda. ainda havia uma mulher com síndrome de Ronaldinho atrás.

"Síndrome de Ronaldinho: fenômeno crônico qual o sujeito não consegue manter-se quieto(a) numa poltrona, sendo fascinado(a) pelo banco da frente e compelida por um desejo compulsivo de realizar chutes automatizados neste de maneira frenética durante toda a projeção. Em casos mais extremos, o desejo é tão poderoso, que avisos e intervenções não serão suficientes para parar os chutes. Uma variação da síndrome foi recém descoberta, onde o portador, quando contrariado por seu hábito, acaba intensificando o ritmo e força dos golpes. Não há tratamento."

Quando os chutes tornaram-se excessivamente repetidos, me virei rapidamente para pedir que a espectadora cessasse as ações, pois estavam causando desconforto em minha pessoa. Em mais um revés negativo da noite, percebi que a mulher sofria da variação da doença, pois os coices passaram de um estado intermitente para movimentos repetidos frequentemente. Pobre mulher, nem deve ter prestado atenção na tela.

Como eu realmente esperava o lançamento de "The Force Awakens", ignorei ao máximo todos esses transtornos, mas é inevitável dizer que prejudicaram minha experiência, por mais que tenha curtido o retorno deste universo que tanto gosto.

Busquei escrever o texto com ironia para não deixá-lo enfadonho, mas é um caso sério e se você, assim como eu, ama cinema, sabe que é corriqueiro e é alarmante que pessoas conscientes e consideradas racionais cometam tais delitos, mesmo, muitas vezes, sendo alertados de que estão fazendo algo errado. Só o fato de precisarem serem avisados já denotado um descaso moral e de caráter.

Eu amo cinema, amo ver filmes e apesar de tudo, não deixarei de frequentar cinemas, mas uma experiência que deveria ser proveitosa e de lazer está, cada vez mais, se tornando um catalisador de estresse e dores de cabeça. E a culpa é nossa.