Crítica - Evereste(2015).

10/03/2015 0 Comments A+ a-


Evereste(Everest), dirigido por Baltasar Kormakur.
Nós somos naturalmente fascinados pela natureza e suas belezas. E quanto mais inóspito for este local, mais perigoso e desafiador, mas magnética será a admiração, os exemplos são vários: Antártida, as cavernas de cristais, no México, a savana Africana, Grand Canyon...e o Everest(com seu E inexplicável no título nacional), este fantástico pico gelado que há anos leva aventureiros a arriscarem suas vidas para atingir o topo da montanha mais alta do mundo.

O filme se passa em 1996 e fala justamente de um grupo de montanhistas amadores que apesar de serem das mais distintas personalidades e classes sociais, compartilham um objetivo em comum, e para isso contam com os guias Scott Fischer(Gyllenhaal) e Rob Hall(Jason Clarke), dois alpinistas experientes que já achavam ter domado o grande “E”.

Infelizmente, o resto é história, tornando-se a maior catástrofe causada no Everest até 2014, quando o recorde de mortes foi batido(8x13). O escritor e jornalista americano, John Krakauer(também autor de “Na Natureza Selvagem”), um dos sobreviventes do desastre, relatou sua experiência no livro “No Ar Rarefeito”, que posteriormente gerou um tele-filme.
A foto real dos alpinistas.


Evereste - o filme é a mais nova adaptação deste triste acontecimento, desta vez como blockbuster e com um elenco estelar, além de não citar o livro de Krakauer como fonte. A obra é a prova de nosso fascínio pelo macabro, e durante seus pouco mais de 120 minutos, romantiza a história desses trágicos heróis que pereceram perante a inestimável força da natureza.

Entre erros e acertos, o longa, que se baseou em vários relatos e obras literárias do ocorrido, como “Deixado para Morrer”, de Buck Weathers(o personagem de Josh Brolin, o que esclarece seu destaque na fita) diverte e é eficiente em seus 2º primeiros atos, o que torna lamentável a condução adotada em seu terço final.

A introdução dos personagens é feita de maneira orgânica e descontraída. A química do elenco fortalece a atmosfera de amizade e companheirismo desenvolvida entre os membros da empreitada, como a mostrada entre Scott Fischer e Rob Hall, que naturalmente parecem se conhecer há tempos. Entre os coadjuvantes, o destaque maior fica com Beck Weathers(Brolin) e Doug Hansen(John Fawkes).

Fawkes, aliás, entrega um dos personagens mais empáticos e certamente o mais humano da fita: o homem é um batalhador, possui 3 empregos e claramente não vive na mesma saúde financeira que os outros presentes no local, sua aparência frágil e motivos de estar ali o tornam inconscientemente querido pelo público, que passa a temer seu futuro durante o clímax. Jason Clarke confere uma áurea responsável, sábia e calorosa para Hall, e seu drama é acentuado pelo fato de sua esposa, Jane(Keira Knightley) estar grávida do primeiro filho(a) do casal. Michael Kelly é mero figurante com seu Krakauski, e Josh Brolin exacerba no tom arrogante e estoico de sua interpretação, o que gera o sentimento oposto ao gerado com John Fawkes, por exemplo.
Química do Elenco deu veracidade à trama.


Lamentável é a única palavra que me passa pela cabeça para definir a falta de profundidade dada as mulheres, ainda mais em pleno 2015. Suas cenas são curtas e muitas vezes relegadas a conversas ao telefone. Keira Knightley serve apenas como estepe para Clarke, e pior ainda a participação de Robin Wright(interpreta a esposa de Brolin) que é apática, e a única ação que justifica sua participação é contrastante com uma fala que seu marido solta durante o filme, onde claramente revela procurar as montanhas para se sentir feliz e em paz, assim como sua atitude negligente para com a família – esquecer de avisar que iria escalar o pico mais alto do mundo(?), e como dito por Wright, de nunca ligar.

Nem mesmo Yasuko, a única mulher da companhia, recebe o tempo em tela necessário para dar dimensionalidade relevante para sua personagem, que é tratada com tanta indiferença que irrita. Emily Watson recebe alguma ênfase no início da projeção, mas insuficiente e uma prova do forte sexismo de Hollywood.

O diretor Baltasar Kormákur(Contrabando, Dose Dupla) explora bem a magnificência assustadora do Everest, e aliado ao uso do bom design de produção, torna a montanha mais que um mero cenário, e sim em um poderoso, temível personagem, como nas tomadas aéreas que revelam a insignificância humana perante o cenário.

O cineasta acerta na criação da tensão, que aumenta de forma paulatina até se tornar sufocante e claustrofóbica, conforme os alpinistas são castigados pela montanha, assim como a exaustão e respiração pesada de acordo com o avançar na escalada contribuem para criar angustia e aflição. Em contraponto à isso, surgem alguns momentos de sensibilidade que merecem nota, como quando Scott Fischer alcança o cume e toca sua ponta de forma sutil e a felicidade de Yasuko ao alcançar o último dos 7 grandes picos. Até aí, tudo ia bem e de forma surpreendente, mas é pro final que muitas irregularidades comprometem o resultado do projeto.
Homem x Natureza.


Baltasar se mostra inapto em gerar cenas de drama satisfatórias e impactantes, também parece não saber como encerrar a participação de vários alpinistas, já que muitos têm seu destino mostrado de maneira burocrática e com perdão pelo trocadilho, “fria”, sem emoção ou intensidade, o que é frustrante. As cenas na zona de morte(altitude acima de 8000m), com os muitos montanhistas se juntando ao mórbido cenário do Vale do Arco-Íris(nome dado onde jazem grande quantidade de corpos de pessoas que sucumbiram ao frio, fadiga e outras adversidades, devido as vestimentas fluorescentes característica que os aventureiros usam) poderiam ser muito mais exploradas, faltou coragem do realizador. Em alguns momentos, fica a sensação de que o cineasta estava realmente sem vontade de fazer o longa, como na chegada ao ponto mais alto da montanha(com exceção ao pequeno momento de Jake, já citado), cena que deveria ser uma catarse, quase épica, mas ficou vazia e sem criatividade.

Atenção, a partir de agora o texto revela detalhes leves da trama.

Outro erro imperdoável foi apelar para o melodrama e sentimentalismo barato em algumas cenas que poderiam alcançar um teor genuinamente dramático, já que segundo relatos de Ken Klamer, que também estava no Everest aquela noite, alguns momentos mais cinematográficos realmente aconteceram: as ligações entre Clarke e Keira, Rob se negando a abandonar Doug e Weathers ganhando forças através de visões de seus filhos e mulher, o que caracteriza ainda mais a incompetência do diretor, que tornou fatos que realmente ocorreram em algo artificial e manipulador.


Ao final, ficam algumas indagações: Ocorreu negligência de Hall e Fischer, ou a “febre do cume”, mal que parece assolar quem se arrisca no alpinismo pode ser considerada a culpada? Até quando é saudável expor a própria vida por motivos de “ego”? São respostas que o espectador terá de encontrar, pois Baltasar, inteligentemente, não tomou partido nelas, uma pena não ter agido assim em todo longa, que sim, é bom, mas ficou aquém de seu potencial.