Ore Monogatari e a Quebra do Estereótipo

10/10/2015 0 Comments A+ a-

Takeo, Yamato e Sunakawa.


“Por que as emoções humanas, até mesmo as minhas, não funcionam do jeito que queríamos”
120 quilos e 2 metros de altura. Essas são as medidas de Gouda Takeo – estudante do 1º ano – protagonista de Ore Monogatari. Além do tamanho truculento, o personagem possui um design muito distinto ao característico em mangás, principalmente em Shoujos. Sua aparência, estatura, voz gutural e caminhar desajeitado passam a impressão de se tratar de alguém violento e grosso, mas muito pelo contrário, Takeo é sensível, altruísta, solícito e um verdadeiro romântico.

Seu melhor amigo, Makoto Sunakawa, o “Suna”, mantém um estilo mais idealizado dos shoujos: misterioso, calmo, inteligente,o cabelo de tamanho médio e o porte físico magro. Apesar dessas características de galã, possui qualidades morais introspectivas, benevolentes e de respeito para com todos, principalmente com Takeo. Durante toda sua vida, Suna foi sempre desejado pelas garotas, inclusive as que Takeo gostava, mas sem jamais receber o sentimento de forma recíproca, o que aumentava sua indignação quando o amigo as recusava, ano pós ano.

Inicialmente interpretada como atitude arrogante e de indiferença, suas escolhas só comprovam a personalidade nobre e de lealdade de Makoto. Esses pequenos traços são algumas das diferenças de Ore Monogatari perante outros shoujos mainstream como Kimi Ni Todoke e Aoharaido: a quebra do estereótipo, tão tradicional no gênero.
Suna serve como conselheiro do atrapalhado Gouda, formando uma bela e honesta amizade.

A personagem feminina principal é Yamato Rinko, que após ser salva de molestamento em um metrô por Gouda, começa a fazer bolos como desculpa para encontrar o rapaz – mas será que ela se interessa por Takeo ou Suna? Como sempre ocorreu, Takeo assume, ingenuamente, que a garota se interessa por seu amigo, e mesmo estando apaixonado por ela, começa a tentar juntar os dois. Pode parecer forçado, mas é uma ideologia comum nas histórias japonesas, se satisfazer com a felicidade daquele a quem amamos. Outra prova da personalidade inocente e benfeitora do protagonista.

Só que para sua surpresa, através de uma jogada inteligente de Suna, Rinko acaba confessando seu amor e paixão por Takeo, e é aí que o romance começa, já no 3º episódio. Mesmo se assumindo como namorados, sua atitude para com o outro é tímida e recatada, muito diferente da noção ocidental para a palavra. A relação do dois vai se desenvolvendo ao longos dos 24 episódios da série, muito lenta e organicamente – lenta mesmo, simples atos como entrelaçar mãos e chamar pelo 1º nome são motivos de nervosismo.
O casal é realmente envergonhado.


E aí temos outro diferencial da obra de Kazune Kawahara. O relacionamento, teoricamente, já se inicia cedo na obra, mesmo que de forma mínima, ao contrário de muitos mangás que discorrem de dezenas de capítulos entre indecisões e flertes. Em Monogatari, Yamato e Gouda se amam e sabem disso, apesar de todas as duvidas inerentes quando há esse tipo de romance.

A partir daí, o casal continua a se encontrar e descobrir mais um sobre o outro. O anime é, de forma geral, muito otimista. Alguns empecilhos naturalmente causados por relacionamentos são mostrados, como quando Rinko apresenta seu namorado a suas amigas, que o tratam com o preconceito habitual julgando por sua aparência. Muitas são as duvidas que nutrem sobre a integridade da paixão que sentem um pelo outro, grande parte devido a timidez que sustentam. Mesmo após meses do início do namoro, os dois ainda sentem dificuldade para expor a complexidade de seus sentimentos, algo salientado pelos próprios personagens, através de seus pensamentos, sempre ilustrados em tela. Toda essa introspecção gera duvidas entre ambos. E se ele(a) se apaixonar por outro(a) alguém?! Algo que evidencia isso é maneira com a qual se comunicam via celular: por áudio, são sucintos e discretos, para talvez segundos após a ligação, mandar mensagens mais amorosas, via sms e não no calor da voz. O espectador, que tem acesso a seus pensamentos, sabe que o amor entre ambos é real, e que jamais demonstram algo latente por outra pessoa, mas a duvida existe entre os personagens, que não exteriorizam seu afeto por um bom tempo.

Primeiro com Rinko, depois com Takeo, os dois sofrem as duvidas e tormentos que essa falta de intimidade provoca. Quando essa insegurança ocorre com Gouda, aliás, uma nova faceta do personagem é revelada, algo surpreendente até mesmo para Suna, seu amigo de anos: a face de alguém inseguro e melancólico, que parece se conformar com o fato de não se achar bom o suficiente para sua amada. 

“Por vezes, amar nos trás as lágrimas, mesmo assim, não tem jeito, amar é uma coisa boa”.

No ápice de suas reflexões, essa é uma frase entoada pelo protagonista. Uma sentença verdadeira e relevante. O amor pode trazer muitas duvidas, muitas dores e por que não, “paranoias”, mas no final, o sentimento enebriante que nos traz é superior a todas as intempéries.
Gouda é um dos personagens mais engraçados, queridos e carismáticos que já tive o prazer de assistir.


E no final, por mais brega e cafona que seja, Ore Monogatari pode ser resumido numa grande história de amor. Mas não o amor em seu conceito limitado, e sim da forma mais ampla possível. O amor da amizade entre Suna e Gouda, que sempre se mantiveram leais  e dispostos um pelo outro. O amor entre Rinko e Takeo, que enfrentaram seus anseios para finalmente demonstrarem a amplitude de seus sentimentos. O amor da irmã de Suna e de Saiju por Gouda, ao respeitarem o que sentia por Yamato, superando o seu próprio desejo.

A obra possui seus defeitos: o relacionamento pode soar utópico demais. O desenvolvimento de Rinko é muitas vezes superficial, sendo que em boa parte do anime, apesar da mesma ser cativante, pouco sabíamos sobre ela, sendo apresentada apenas como uma confeiteira alegre, retraída e apaixonada. Porém, todas suas qualidades acabam tornando esses fatores quase irrelevantes. Os personagens são apaixonantes, a dublagem é excelente(a de Takeo é certamente uma das melhores que já vi, expõe bem sua ingenuidade e paixão, utilizando de um timbre forte e muito, muito engraçado, aliás, o humor é um dos destaques da adaptação). A animação é pouco exigente, mas eficiente mesmo assim, como a trilha sonora, muito discreta.

Isso é Ore Monogatari, uma série tão viciante quanto o coração de seu protagonista. Recomodadíssimo.

SUKI DA!

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Notas:

 - Dia 31 de Outubro(Halloween) será lançado um Live Action da história nos cinemas nipônicos. Confira o trailer.
 - O anime possui belos temas musicas. A abertura é Miraikei Answer, autoria de TRUSTRICK. O encerramento é Shiawase no Arika, da banda Local Connection.