Crônica de um Miserável

10/26/2015 0 Comments A+ a-

A triste rotina de quem perdeu a esperança.


Um barulho irritante preencheu o ar, eram 05:55 da manhã e o relógio despertará. Ele já estava acordado, o barulho apenas o livrou da sensação de torpor em que se encontrava, completamente perdido em pensamentos que assim evaporaram-se.

- Eu ainda estou vivo, afinal? – Foi sua primeira frase antes de levantar da cama, preparando-se para enfrentar o novo dia. Cursa universidade, um curso considerado “de elite”, uma denominação que sempre o irrita, mais pela opinião própria do que por considerar uma falácia. A faculdade se tornará apenas mais um fardo em sua rotina, não sente simpatia nenhuma pelo que faz, algo que apenas se acentua com o passar dos dias.

- “Ainda estou no começo, na teoria, conforme o avançar, criarei amor pelo que estou aprendendo” – é o que costuma dizer para as pessoas que o indagam sobre, mais para tentar convencer a si mesmo do que o ouvinte. Não passa de um histrionismo, e sabe disso, no fundo, sabe, mas negar a verdade é a única forma de tentar evitar algo pior, enganar-se é a única maneira de manter alguma esperança e não afundar ainda mais. E está fundo, bem fundo, submerso, na verdade.

Neste dia, haverá prova. Não havia estudado, sabe que irá mal e mesmo assim, o que sente é uma completa indiferença, no máximo uma vontade de livrar-se logo, tirá-la dos pensamentos. Não teria forma de ir bem, é o que usou para conformar-se. Sente-se um lixo, desprezível pela atitude, mas essa auto-resignação é algo que está acostumado, não se recorda quando, nem como ela começou, apenas que não sabe mais como escapar dela, não sabe como fugir de nada.  E haveria como fugir disto, digo, fugir de si mesmo?! Pois seu maior problema não era nada além de sua própria existência.

Tivera lido, em algum lugar tão perdido no tempo quanto qualquer reminiscência de sua felicidade, que o “auto-conhecimento de seus limites é o segredo para uma vida saudável”. Ele tem pleno conhecimento de seus limites, mas isso lhe proporcionara tanto prazer quanto chutar a quina de uma porta. Possuir o auto-conhecimento de seus limites apenas lhe propicia a consciência do quão medíocre é, inútil e desprovido de qualquer talento. Qualquer sonho já havia abandonado suas ambições, sucumbirá a tamanho desprezo por si mesmo, pois para si, sonhos eram apenas uma nova maneira de se decepcionar e aumentar a ojeriza própria, se é que isso é possível.

Após cerca de 40 minutos, já de banho tomado, parte para a universidade. Em todo o caminho, tenta esvaziar a mente escutando canções, e talvez funcione, a não ser por um único pensamento, que de tão frequente, tornara-se íntimo dele, um parceiro funesto. O pensamento de morte lhe é frequente, um desejo, mas que o leva ao riso. O quão ridículo alguém tem de ser para definhar, perder horas pensando sobre algo, mas ser incapaz de proporcionar para si mesmo por pura covardia?! É tão patético no dia a dia, que não vê nem a possibilidade de atingir este objetivo. A coisa toda tornou-se então um jogo um tanto mórbido. Ao avistar janelas, postes, animais, qualquer objeto, imagina como algum mágico acidente poderia lhe tirar a vida. Que trágico isso seria, mas como anseia.

Chegando no local, cumprimentou os colegas, não nutre intimidade grande com nenhum, não sabe mais como fazer isso, talvez nem vontade. É simpático, educado, tenta se manter interessado nas conversas e deseja o bem para as pessoas, mas o que quer, na verdade, é voltar logo para casa e isolar-se do mundo externo em seus ridículos lamuriamentos. Fez a prova, o resultado foi o esperado, mas isso já não mais o perturba.

Não sente mais apego nenhum a realidade, nenhuma perspectiva pelo futuro. O que o prende ao mundo é apenas a falta de oportunidade de sair dele, o que não consegue fazer a si mesmo por medo. Ele despreza este medo, mas não consegue vencê-lo, e assim como com quase tudo que faz, desistiu.

Não está triste, mas muito pior. A tristeza, ao menos, era uma demonstração de vida, o que ele, ao contrário do que parece, não está. O que sente é um vazio tão profundo quanto o fundo do oceano, inatingível, uma falta de propósito e desinteresse enorme, e mesmo com tudo isso, não consegue  tomar coragem para desligar-se.

Seus relacionamentos são escassos. Já tivera muitos amigos, mas perdera a habilidade para tal. Não é uma pessoa divertida ou interessante, apenas mantém contatos sociais devido a convivência diária, mas sem jamais gerar laços reais, inclusive com seus amigos de infância,  de quem se sente mais e mais distante. Namorada nunca teve, algumas vezes sente necessidade de alguém para passar as horas, conversar nos piores momentos, alguém a quem confiar, mas não é possível, é cônscio disso. Não possuí aparência ruim, mas jamais conquistará alguém com sua personalidade, tão cativante e carismática quanto a de um rato. Gosta de alguém em especial, tem tanta consciência sobre isso quanto do fato de que jamais abordará a garota. Ao menos assim, pode fantasiar bons momentos e não ter uma imagem definitiva para acrescentar em sua pilha de decepções e constrangimentos. Havia falhado tanto em suas tentativas, que conformou-se com isso, e, intimidado, passou a nem mesmo tentar.

Ele existe, mas não mais vive.

O dia passou, teve aula de tarde, foi ao mercado, voltou para casa, onde mais uma vez tentou refúgio no mundo da fantasia, com seus livros, filmes e seriados, mas ultimamente, nem assim consegue algum descanso.

Chegada madrugada, preparou-se para dormir, e após tantos pensamentos, um último lhe atingiu – "Eu ainda estou vivo, afinal?".